Cumprimentou sem olhar para trás.
- Como sabe que estou aqui? Eu não fiz um ruído. – Tiago.
- Imaginei que viria o mais cedo possível. Acha que estou melhor? – Carlos.
- Sim. Parece ter melhorado.
- Entoa diz pra Io-lan e Bin-Bin pararem de me dar gelatina por que eu não sou um bebê.
Tiago continuou sério e Carlos largou o prato na bandeja sobre as pernas.
- Qual o problema? – Carlos.
- Não é nada. Só que eu pensei... – Tiago.
- Estou bem Tiago, acredite. Fez o que eu pedi?
- Sim. Apenas o essencial.
- Ótimo. Eu soube que Sandra levou alguns residentes para tomar sorvete na praia.
- Fui convidado, mas preferi te fazer uma visita.
- Sorvete no café da manhã não é de se recusar. Devia ter ido e trazido para mim um pote de cinco litros.
- Não creio que seria uma boa idéia.
- Qual o problema Tiago? Você parece cansado. Aposto que não dormiu.
- Estava sem sono.
- Mentira.
Tiago se virou de costas, ficando invisível ao rodear Carlos que o acompanhou com os olhos sem ter certeza de onde ele estava. Tiago reapareceu com um papel nas mãos.
- É a nossa mãe? – Tiago.
Carlos pegou a foto e suspirou.
- Sim. – Carlos.
- Não me lembro dela, nunca vi nenhuma foto. Por que não me mostrou antes? – Tiago.
- Eu não sei. Tenho esta foto há tanto tempo...
- Não me recordo da minha infância Carlos. Você devia ter me contado tantas coisas.
- Eu sei e me perdoe.
- Depois de ontem eu lhe perdoarei pelo resto da vida Carlos. Sei que minhas perguntas são irritantes, mas preciso das respostas.
- Você não me irrita Tiago, nem nunca me irritou. Você só me lembra...
- O que eu te lembro?
- Veja na foto.
Tiago pegou o papel de volta e viu o menino de olhos claros e gordas bochechas.
- Viu? – Carlos.
- É você quando bebê? – Tiago.
- Não! É você, no seu aniversário de um ano.
- Não pode ser eu. Tenho olhos castanhos.
- Nossa mãe também tinha. Aos dois anos os seus olhos tornaram-se castanhos. Não é só nos olhos que você me lembra ela.
- É verdade?
- Veja a postura séria dela, o olhar calmo mesmo que esteja sob tensão... Devem ter a mesma raiz da unha de tão parecidos.
- Sabe o nome dela?
- Tereza.
- E o do nosso pai?
- Eu não posso te contar.
- Se você sabe conte.
- Não vale a pena.
- Sei que ele foi um criminoso, mas não sei de mais nada. Se ele ainda está vivo pode estar preso, poderíamos procurá-lo.
- Não!
Carlos sobressaltou Tiago ao falar tão rispidamente.
- Talvez ele queira nos conhecer, afinal somos os seus filhos. – Tiago.
- Ele sabe onde nós estamos e não veio nos conhecer. – Carlos.
- Sabe onde ele está?
- Talvez eu o matasse se pudesse.
- Então você tem que me dizer por quê.
- Acho que alguma coisa você tem idade pra saber, não tem mais seis anos.
- Qual o crime de nosso pai?
- O crime deste fugitivo que eu não chamo de pai foi o de ter matado a nossa mãe. Os olhos não se fecharam calmos como sempre era, e nem a postura mais era séria como em toda a sua vida. O menino, tão parecido com ela, desapareceu por semanas.
- Ele a matou?


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